Imagem: Divulgação/Iede
O Brasil apresentou avanços recentes na aprendizagem de matemática, mas os resultados ainda revelam um cenário preocupante. Dados nacionais e internacionais mostram que uma parcela significativa de crianças e adolescentes não desenvolve as habilidades matemáticas esperadas para a idade.
No Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), a proporção de alunos do 5º ano com conhecimentos adequados em matemática passou de 44% em 2023 para 51% em 2025. Apesar da melhora, os números indicam que praticamente metade dos estudantes ainda não alcança o nível esperado.
Outro indicador é o Estudo Internacional de Tendências em Matemática e Ciências (TIMSS). Em 2023, o Brasil obteve média de 400 pontos em matemática, ficando 103 pontos abaixo da média dos países desenvolvidos. Naquele levantamento, o país ficou à frente apenas do Kuwait e da África do Sul.
No Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), os resultados também apontam dificuldades persistentes. Entre 2015 e 2025, o avanço brasileiro em matemática foi pequeno. Aproximadamente sete em cada dez estudantes de 15 anos não conseguem realizar operações matemáticas consideradas simples.
Estudo aponta caminhos para melhorar o ensino
Diante desse cenário, uma pesquisa realizada pelo Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede), em parceria com a B3 Social e em diálogo com a Fundação Lemann, analisou experiências de redes municipais de ensino que conseguiram apresentar resultados consistentes em matemática.
Foram analisadas iniciativas desenvolvidas nos municípios de Casinhas (PE), Joaquim Távora (PR), Ji-Paraná (RO), Miracema (RJ), Junqueirópolis (SP), Anicuns (GO) e Cruz (CE), onde foi realizado o projeto-piloto.
Segundo os pesquisadores, a escolha levou em consideração redes que apresentam bons resultados de maneira consistente, inclusive entre estudantes de menor nível socioeconômico.
O estudo, divulgado pelo g1, reúne estratégias que, quando aplicadas de maneira articulada, podem contribuir para melhorar o ensino de matemática nos anos iniciais do ensino fundamental.
1. Gestão da rede precisa acompanhar de perto a aprendizagem
Uma das conclusões do estudo é que a melhoria dos resultados começa também pela organização das secretarias municipais de Educação.
Entre as medidas apontadas estão:
- definição de metas claras sobre o que os alunos precisam aprender;
- criação de rotinas e materiais compartilhados;
- acompanhamento frequente das escolas pelas equipes técnicas;
- reuniões de alinhamento com diretores e coordenadores pedagógicos;
- integração entre currículo, materiais didáticos, formação de professores e avaliações;
- utilização dos resultados das avaliações para ajustar o planejamento;
- acompanhamento dos planos de aula;
- fortalecimento da coordenação pedagógica como elo entre a secretaria e a sala de aula.
Entre os principais obstáculos estão a falta de especialistas em matemática, equipes técnicas sobrecarregadas e a dificuldade de manter projetos de longo prazo diante das mudanças de governo.
2. Sala de aula deve combinar prática, compreensão e resolução de problemas
O estudo aponta que o ensino de matemática não deve se limitar à memorização de fórmulas ou ao treinamento mecânico para provas.
As redes consideradas bem-sucedidas adotam rotinas estruturadas, com revisão de conteúdos, explicação do professor, resolução coletiva de exemplos, atividades práticas e correção.
Também existe espaço para o treino sistemático dos cálculos, importante para desenvolver fluência matemática.
Ao mesmo tempo, os estudantes são estimulados a:
- explicar como chegaram a determinada resposta;
- comparar diferentes estratégias;
- resolver problemas que exigem investigação;
- testar possibilidades;
- compreender por que determinado procedimento funciona;
- aprender a partir dos próprios erros.
O erro, nesse contexto, passa a ser utilizado pelo professor como uma ferramenta para identificar dificuldades e compreender o raciocínio do aluno.
3. Espaços e tempo também fazem parte da aprendizagem
Outra recomendação é aproveitar melhor o tempo disponível em sala de aula.
As atividades devem começar rapidamente e seguir uma rotina previsível, reduzindo períodos ociosos e ampliando o tempo efetivamente dedicado à aprendizagem.
O estudo também recomenda a criação de ambientes “matematicamente ricos”, com elementos como:
- retas numéricas;
- tabuadas;
- calendários;
- formas geométricas;
- moedas e cédulas;
- trabalhos produzidos pelos próprios alunos.
No entanto, os pesquisadores alertam que esses materiais não devem ser utilizados apenas como decoração. Eles precisam fazer parte das atividades pedagógicas.
As escolas também podem promover olimpíadas, oficinas, desafios matemáticos, atividades de educação financeira e eventos envolvendo as famílias para estimular o interesse pela disciplina.
4. Materiais concretos podem ajudar na compreensão
Jogos, ábacos, relógios didáticos, dobraduras, sólidos geométricos e materiais recicláveis podem ajudar os estudantes a visualizar conceitos que, inicialmente, são abstratos.
A pesquisa, entretanto, destaca que não basta disponibilizar os materiais.
O professor precisa estabelecer um objetivo de aprendizagem e conduzir a atividade de maneira que os estudantes expliquem suas estratégias, comparem soluções e organizem o conhecimento construído.
Algumas redes também desenvolvem seus próprios materiais, adaptados às necessidades e à realidade local.
O principal desafio é evitar que jogos e recursos manipuláveis sejam utilizados apenas como passatempo. A tecnologia e os materiais pedagógicos também não substituem a mediação do professor.
5. Avaliação deve servir para orientar o ensino
Outra estratégia identificada é a criação de sistemas próprios e contínuos de avaliação.
As secretarias podem realizar diagnósticos ao longo do ano para identificar quais habilidades já foram consolidadas e quais ainda precisam ser trabalhadas.
Nesse modelo, a avaliação funciona como uma bússola para o professor, ajudando a definir prioridades, reorganizar o planejamento e criar ações de reforço e recuperação.
O estudo alerta, porém, para o risco de transformar o ensino em simples preparação para provas.
Além das questões objetivas, é importante avaliar a capacidade do estudante de explicar ideias, resolver problemas, argumentar e demonstrar seu raciocínio.
Outro desafio é garantir que as equipes tenham tempo e capacidade para interpretar os resultados e transformá-los em ações concretas.
6. Formação de professores e inclusão são fundamentais
A formação continuada aparece como outro ponto importante.
As secretarias devem organizar encontros periódicos, preferencialmente dentro da jornada de trabalho, para discutir currículo, planejamento, estratégias pedagógicas e dificuldades encontradas pelos professores.
Parcerias com universidades e outras instituições também podem ampliar o repertório dos profissionais.
Na área de inclusão, o estudo destaca a importância de profissionais de apoio, psicopedagogos, Atendimento Educacional Especializado (AEE), salas de recursos multifuncionais e ações específicas de recomposição da aprendizagem.
Também são apontados como positivos materiais que valorizem a cultura, a geografia regional e a diversidade.
Entre os problemas encontrados estão a falta de formação específica em matemática, encontros pedagógicos excessivamente voltados a temas gerais ou avisos administrativos e a insuficiência de profissionais especializados.
Tudo precisa estar articulado
Para os pesquisadores, não existe uma única solução capaz de resolver as dificuldades brasileiras em matemática.
A melhoria depende da combinação entre gestão, planejamento, formação docente, avaliação, materiais pedagógicos, organização da sala de aula, inclusão e participação dos estudantes.
A professora Maria Helena Bravo, gerente de pesquisas do Iede, destaca que até mesmo atividades consideradas lúdicas precisam estar vinculadas a objetivos pedagógicos claros.
“Um jogo matemático, por exemplo, não produz aprendizagem simplesmente porque está disponível. Ele ganha sentido quando o professor o articula a um objetivo de aprendizagem, faz perguntas, pede que os estudantes expliquem suas estratégias, comparem soluções e sistematizem o conhecimento produzido naquela atividade.”
O desafio brasileiro, portanto, não está apenas em aumentar a quantidade de aulas ou aplicar mais avaliações. A questão central é construir uma política de aprendizagem capaz de fazer com que diferentes ações trabalhem juntas e cheguem efetivamente à sala de aula.
Via: g1
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